mestre do silêncio

Já imaginaste um oceano no meio da tempestade? O céu escuro, as águas turbulentas, os pedidos de socorro? É assim dentro de mim, mas tudo numa mudez taciturna. Tudo devastado e fadado à destruição.
Sempre fui criadora de falsas realidades. Sempre vivi sob as estrelas sem nunca ter olhado o céu. Sou só uma menina sem essência, uma criança ferida, uma mulher que suporta os pontapés que a reduzem ao nada. Sou só um corpo perdido que vagueia constantemente sobre um campo minado, o vendaval disfarçado de calmaria, uma alma morta cuja carne não aguenta mais. Sou só a mestre na arte de falar em silêncio.
Não me ouviste?
Ninguém ouviu.
Ninguém tentou remendar a sombra de despedida que carregava no peito. Ninguém se apercebeu que a cada palavra que saía da minha boca, a morte suspirava, fria e lentamente, nos meus lábios. Ninguém reconheceu o quão vazia estava, mesmo estando diante de um mundo tão cheio.
Ninguém percebeu que eu só perdi ao perder-me.
No seio da noite, os meus gritos ainda eram feitos da mesma fragilidade de um avião de papel. Pela madrugada, as minhas lágrimas subsistiam como o etéreo pesadelo que se amontava nos meus cabelos. Pela fresca da manhã, a minha dor era ainda um adereço que permanecia trancado sobre a cómoda do meu quarto. E mesmo assim, diante centenas de pedaços, eu soube que o meu maior erro foi acreditar que o defeito era meu.
Nunca foi.
Sabes aquela única peça do quebra-cabeças que, por mais que tentes, não consegues encontrar? Essa é a toxina que vai matar-te.