confesso
30-09-2020

Confesso: o tempo que me pedira calma é o mesmo que corria apressado e exigia passagem. Não sabia se corria, e acompanhava na manha, ou o deixava partir como uma miragem. Confesso que busquei colheita num solo cansado, semeado de frustrações que o impedia de rugir com vida. Confesso que não sabia onde ir, mas também não hesitei em ficar. Fiz do problema casa e não a casa o problema. Cultivei os seus jardins, busquei o seu conforto, enriqueci o silêncio com o barulho que não quer calar. Confesso que ofereci abrigo à agonia e, quando certo, fiz com que buscasse um novo lar. Chorei, deixei queimar. A carne havia de curar. Se saudade tinha moradia no teu abraço, um dia deixou de estar. Confesso que almejei encontrar os olhos certos quando não era de procurar. Os últimos tinham-lhe chamado de amor. Não, amor tem gosto de café na cama e lençóis desarrumados. Dei-lhe outro nome.