sobre perder

Há uma calmaria incomum pela casa e uma inquietação profunda dentro do peito. Uma poltrona vazia e uma caneca de café a menos. Ninguém está ali para reclamar, para debater com o verdadeiro fulgor que uma discussão merece.
Tento disfarçar que não dói, que o frio vai parecer menos intenso para todos aqueles cobertores dobrados no armário. Tento disfarçar a saudade e digo a mim mesma que aquela batida no portão ainda provocará corridas à janela e olhares afiados para a rua. No entanto, sair da vida de alguém quando queremos ficar não é fácil. Dói.
Dói muito. Dói demais.
As nuvens parecem algodão e o sol deixa de brilhar por implicância. O tempo flui lentamente e a brisa sopra lembranças por todo o meu rosto. E do mesmo jeito, se a janela do autocarro pudesse falar, contaria todas as saudades e dilemas que imagino através dela enquanto não chego ao meu destino.
Por outro lado, a vida já nem espera a dor passar. Já nem espera que o coração repouse sobre o frágil argumento de que o amor autêntico não existe. Ela faz-me encarar de frente. Faz-me lidar com os medos, com constante temor de encontrá-lo e descobrir que o sentimento ainda lá está. E aí, eu tento disfarçar que não dói vê-lo ir embora. Que não magoa vê-lo partir com um pedaço que uma vez fora só meu. Eu tento. Procuro tanto acreditar que me vejo reduzir num caos emocional.
Então, eu percebo que não posso apagar o rastro de tudo aquilo que ele deixou para trás, de tudo aquilo que ficou comigo sem que ao menos tivesse percebido. Eu sempre lembraria do calor efervescente das suas íris nubladas, do timbre rouco da sua voz e do volume estrondoso da sua risada. Eu lembraria o detalhe mais vulgar e minucioso. Porque no final, nenhuma tempestade pode ser comparada ao que vivemos.
Fomos únicos, intensos e sóbrios. Fomos uma hipérbole de sentimento e um eufemismo de sensações. Fomos tudo sem ser nada.